quinta-feira, 24 de junho de 2010

Entrevista muito boa de Márcia Frazão



O Caldeirão da Bruxa

2009-05-06 17:09

Márcia Frazão é uma das bruxas mais conhecidas do país, especialmente por suas receitas mágicas e por uma visão do mundo da magia que vai além dos modismos.

Alex Alprim e Gilberto Schoereder

Uma figura querida e respeitada na bruxaria brasileira, Márcia Frazão começou a se destacar na mídia pela atenção especial que dedicou à cozinha da bruxa. Autora de sete livros, formada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e moradora de Nova Friburgo, ela já se definiu como uma mulher comum que cuida da casa, dos filhos, do marido e do cachorro.
É uma bruxa que se coloca contra os modismos do momento, em que tanta gente está tentando faturar algum em cima da bruxaria e da feitiçaria, mas sem saber muito bem o que estão fazendo. Embora suas intensas leituras e estudos sejam citados como influências, ela diz que não aprendeu bruxaria nos livros, mas com suas ancestrais, como a avó Vitalina, indicando que a magia corre pelas veias da família já há bastante tempo.
O primeiro livro foi A Cozinha da Bruxa, um sucesso que tornou seu nome conhecido em todo o país. Depois vieram Revelações de Uma Bruxa, O Gozo das Feiticeiras, O Feitiço da Lua, O Oráculo dos Astros, A Panela de Afrodite e O Manual Mágico do Amor. Apesar do sucesso, precisa fazer traduções para ajudar seu sustento, e recusa-se a dar consultas, principalmente porque não acredita que possa ajudar pessoas que nem sabe quem são.


Como você começou a se interessar por magia?
Na verdade eu não poderia dizer que "um dia comecei a me interessar pela magia", pois desde que me entendo por gente vivencio o mundo de forma mágica. Isso me foi passado pelas mulheres da minha família, da mesma maneira que um dia foi passado a elas. A magia, para mim, não é diferente do ar que respiro, da água que bebo e da comida que me alimenta.

Por que o seu interesse especial por magia da cozinha?
Porque na cozinha realiza-se a arte suprema da alquimia, e é lá que os elementos se fundem para darem origem a novas realidades. Na cozinha, o mundo se revela por inteiro, e o ser humano (se for sensível o bastante) se vê sem as máscaras habituais do cotidiano. No calor do fogo o homem descobre o sentido da existência e perde a prepotência estúpida de se pensar o "elegido" dos deuses.

Quais foram suas influências e principais estudos?
As minhas maiores influências foram os tombos que levei, os erros e as tentativas de acerto. Foram as lições de Vitalina, Virgínia, Luiza, Nadir, Nazir, Nazair, Aída, América, Olinda, Maria Luiza, Mariza, enfim, de todas as minhas ancestrais que me ensinaram a difícil e singela arte da delicadeza. Quanto aos meus estudos, eles sempre se voltaram para a Filosofia, História, Antropologia, Psicanálise, Literatura e Mitologia.

Os atuais grupos neopagãos estão, de fato, relacionados aos antigos conhecimentos pagãos, ou existe muito modismo?
Aqui no Brasil a coisa não está nada boa. Geralmente o que se vê é uma porção de espertos querendo, em nome do paganismo, tirar um troco das pessoas, ou mesmo resolver os seus complexos de inferioridade exercendo poder sobre os outros. Isso é uma pena, pois a retomada do paganismo poderia nos ser bastante útil nesta vida insana que levamos; ele nos dá chance de nos voltarmos para a nossa verdadeira natureza, de resolvermos as nossas idiotices "civilizadas" e nos abrirmos mais para o mundo e para o outro.

O que você acha do trabalho do Scott Cunningham e Gerald Gardner?
Gosto muito do trabalho do Scott, mas o do Gardner tem muito mais peso. Pena que poucos consigam lê-lo até o fim, pois se lessem não sairiam por aí dizendo besteiras sobre a Wicca. O Gardner era um cara bastante estudioso, um pesquisador sério que, num momento em que o mundo ainda amargava os efeitos da Segunda Guerra Mundial, tentou mostrar um caminho mais doce para o homem ocidental.

Como está a religião Wicca hoje?
Acho que a coisa está feia, muito feia, e deve ficar mais feia ainda. A Wicca está sendo aproveitada de maneira torpe e lucrativa, e em pouco tempo deverá ser substituída por alguma outra moda. Muita gente fala e acontece sob as asas da Wicca, mas poucos conseguem abraçá-la verdadeiramente.

Parece que algumas práticas como o tarô, florais e outras estão sendo proibidas em alguns países. O que você pensa a esse respeito?
Essa questão é muito delicada. Por um lado, acho que a grande maioria dos "profissionais" que se encontra no mercado não passa de embusteiros, pessoas mal preparadas que fazem um cursinho de dois meses (geralmente pensando numa solução financeira) e saem por aí dando consultas a torto e a direito. Por outro lado, existem os verdadeiros mestres, pessoas que dedicaram grande parte da vida ao estudo, pesquisa e aprimoramento, como por exemplo o Pedro Tornaghi, que desde a década de setenta estuda astrologia e é um baita astrólogo. Pessoas como o Pedro estão realmente fora dessa mixórdia embusteira que vemos todos os dias, e devem ser respeitadas da mesma maneira que se respeita um bom médico, um bom advogado ou um bom engenheiro. Porém, essas outras, essas que manipulam artes milenares sem o menor escrúpulo e respeito, essas deveriam estar enquadradas em crime de estelionato.

Qual a visão que você tem de Deus?
Eu não sei se eu poderia dizer que tenho uma visão de Deus da mesma maneira que não poderia explicar a razão de acordar todo dia. Deus, para mim, faz parte do meu ritmo vital; é a mesma coisa que acordar e dizer bom dia.

Dentro da visão mágica existe a dicotomia bem e mal, como nas maiores religiões do planeta? Como essa questão é abordada na magia?
No mundo mágico que me foi passado pelas minhas ancestrais existe somente a noção de justiça. O bem e o mal fazem parte de uma civilização maniqueísta, que tem horror às diferenças. Muitas vezes aquilo que consideramos "mal" não passa de um acerto dos deuses.

É comum o estudo da magia exercer atração especial sobre os jovens e, como eles se encontram num período de transformações internas profundas, muitas vezes eles entram em colapso. Como esse momento deve ser tratado?
É pena que a verdadeira arte não esteja sendo transmitida aos jovens. Eu lamento que essa garotada esteja sendo orientada por mentes tão estreitas. Se me fosse dada a chance de dizer qualquer coisa a esses jovens, eu diria:
1 – Leiam todos os poetas.
2 – Delirem com os pintores.
3 – Aprendam com os índios.
4 – Sonhem com os sonhadores.
5 – Busquem a liberdade e façam dela o seu maior deus.
6 – Exerçam a arte da indignação perante qualquer injustiça.
7 – Acreditem em tudo aquilo em que os caretas desacreditam.
8 – Criem canções, poemas, telas, romances e espalhem-nos aos quatro ventos.
9 – Não permitam que ninguém corte as suas asas.
10 – Façam magia como se estivessem fazendo amor.

Existem algumas linhas pagãs extremamente feministas, consideradas por alguns como extremistas ao ponto de desconsiderar as funções masculinas no mundo. Entende-se que se trata de um “machismo de saias”, que não busca o equilíbrio e, segundo alguns pensadores como Ken Wilber, distorcem a realidade histórica. O que você pensa a esse respeito?
Acho que tanto a mulher quanto o homem estão em processo de mergulho na alma. Esse mergulho, a princípio, pode resultar em algum isolamento, mas no final (se o mergulho for bem dado) tanto o feminino como o masculino saberão conviver pacificamente com as suas diferenças.

O que você aconselha a quem quiser se iniciar no caminho da magia?
Sonhe, sonhe, sonhe sempre, e faça do sonho a sua maior verdade.


Revista Sexto Sentido

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